27 de mar de 2011

Gelatina de maçã natural

Todo domingo, lá pelas 18h , horário da Ave Maria, ela vem chegando de mansinho... uma espécie de “ tédio dominical”. Acho que tudo começou na infância quando ia lanchar na casa da avó em Copacabana. Chegando na rua já dava para ouvir ao fundo o ruído de narração do futebol no radinho do porteiro. Durante o lanche entrava a musiquinha de abertura dos Trapalhões :" Tãnãnãnã nãnã...tãnãnãnãnã nãnã" e terminava com o " Tchá tchu tchu tchá...Tchá tchú tchú tchá" do início do Fantástico com Isadora Ribeiro saindo da água com uma antena na cabeça. O apartamento impecavelmente limpo. Típico de vó em Copacabana. Os sofás e poltronas eram cobertos por uma capa plástica transparente para não sujar. A pessoa ficava desconfortavelmente sentada com as pernas suando, mantendo tudo eternamente em ótimo estado. A lógica era não usar para não gastar, vai entender... A avó, mesmo sem nunca sair de casa, estava arrumada com unha feita, maquiada, vários anéis , pulseiras, cabelo pintado. Vaidosa que só ela. Também pudera, foi vedete na juventude. Atriz de teatro de revista. Eu adorava mergulhar em seu ármario e vestir os casacos, vestidos, chapéus, luvas, plumas, scarpins e perucas dessa época. No quarto em cima da cama havia uma pintura dela no auge da juventude posando nua. A casa era cheia de autoretratos pelas paredes. Sua companhia era o gato King que pensava ser um cachorro, quando chegava visita ficava em baixo da cama escondido e atacava pulando na perna de quem se aproximasse. Minha avó precisava prendê-lo no banheirinho, King tinha até coleira. Era bravo, branco, gordo e loiro. A coleira era com pedras vermelhas. O apê era completamente kitch. Muita fruta, nozes, uvas, ramas, flores, velas douradas tudo de plástico enfeitando o centro da mesa. Na estante imagens e oferendas a todos os santos de todas as religiões, de buda com arroz e moeda, a Nossa Senhora, deuses indus, orixás, foto da Ama, elefante virado de costas, mantras japoneses, etc. Carpete verde musgo, papel de parede e espelho jateado completavam a decor. No banheiro vários vidros de perfumes importados que acabaram fazia tempo, mas ela enchia de água com anilina amarela, rosa, verde. Ela nunca deixou de ser vedete. Meu avô foi dono de circo, conheceram-se no teatro de revista. Uma vez pedi para me dar um de seus casacos de pele que ficavam guardados num frigorífico. E embora não usasse mais nada daquilo, sabe o que me respondeu? : "- Minha filha anota para colocar no testamento". Dona Cremilda Oliveira frequentava Punta del Este,Buenos Aires e São Lourenço. Fã de Julio iglesias, Roberto Carlos, Simone. Era sócia do Rotary club , usava salto e tamanco. Esmalte e batom sempre vermelhos. Duzentas plásticas no rosto e seios. Cabelos a la Marlin louríssimos. Muita estampa de onça , zebra, cobra , tigre. Pense na Hebe Camargo, esse era o style da vó. Apesar de todas as nossa brigas durante anos , percebo que herdei muita coisa dela, todo o meu lado perua vem daí. Hoje fiz as pazes, perdoei e guardo a imagem de uma personagem, uma figura engraçada, cheia de defeitos mas com qualidades singulares. Eu costumava ficar na sua casa quando minha mãe tinha plantão na redação. Dormir na avó significava dormir de madrugada e acordar meio dia, no fuso horário dela. Durante a noite ficávamos vendo filme e ela me botava para tirar bolinha de casaco de lã com um rolinho do Paraguai. Outro dos lugares que costumava frequentar. Preocupada com o corpo e alimentação. Suas receitas eram lights. Uma sobremesa que tinha sempre em sua límpida geladeira era a gelatina de maçã feita com agar agar. Gelatina de maçã da vedete: 500 ml de água 400 gr de maçã 1 pitada de sal 3 colheres de sopa de agar-agar Sumo de ½ limão 2 colheres de sopa de Agave ou stévia Descasque as maçãs, corte em quatro e cozinhe-as com a água, o agar-agar e o sal, durante 20 minutos. Acrescente o sumo de limão e o Agave ou Stevia . Coloque no liquidificador e bata bem até fazer espuma. Passe para uma forma de pudim . Deixe esfriar e leve a geladeira para solidificar. Para desenformar, coloque a forma em água quente submersa até meio por 1 minuto e desmolde-a para um prato, sirva em fatias como se fosse um pudim. * Como minha avó não me passou a receita peguei essa emprestada do blog português Bitoque Sem Bife a receita é de Beatriz Silva.

Um comentário:

  1. Que bom lembrar da vó. Me lembro que foi ai que vi por primeira vez frutas de plastico!

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